sexta-feira, 29 de julho de 2016

ele há coisas..

"Não atires pedras a estranhos porque podem ser o teu pai"
(Fernando Alvim)

vs

"Sempre quis ter um Mercedes, quando percebi que não ía ter dinheiro para um juntei-me ao PCP"
(Nelson Campos)



.. que um líder de um sindicato critique publicamente um membro do secretariado de uma comissão de trabalhadores, da mesma área, por aceitar ser coordenador numa área em que trabalhou toda a sua carreira e que domina, é normal e entendivel..
.. que um líder de um sindicato critique aberta e publicamente de forma repetida o porta-voz de uma comissão de trabalhadores, da mesma área,  por aceitar ser coordenador de uma área em que trabalhou toda a sua carreira e que domina, é também normal e entendivel..
.. que um líder sindicalista se auto-proponha a liderar simultaneamente um sindicato e uma comissão de trabalhadores da mesma área, sendo instituições de cariz diferente, com intuitos e representatividades diferentes e até potencialmente em conflicto.. é algo estranho, mas entende-se.

.. que um líder sindicalista, mas também de uma comissão de trabalhadores, aceite tornar-se especialista numa área em que, tendo feito a sua carreira, não domina nem acompanha, até é, apesar de condenável por alguns, compreensível.. de certa forma..


difícil de compreender, é que estas pessoas todas, sejam a mesma..

.. ele há coisas...

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

A segunda vaga





Depois do primeiro impacto da crise sobre a economia com as conhecidas consequências na vida real é chegada agora a segunda vaga, a falência institucional e o rompimento da base social.

Se primeiro momento a crise era essencialmente dos sobre endividados, que há anos viviam “com a corda no pescoço” e que se viram afetados direta e imediatamente pelos excessos de consumo em que incorreram, arrastando atrás de si famílias e credores. Num segundo momento, e com a abrupta subida da taxa de juro e as consequentes medidas de austeridade englobado no plano da troika, pondo em causa todo o Estado Social que foi criado ao longo do Sex. XX, iniciou-se a disrupção da sociedade com os crescentes apelos às instituições de solidariedade social pelo fornecimento de roupa e alimentação, com a fuga massiva de mão-de-obra para o estrangeiro (quer qualificada, quer não qualificada) e com o abandono sistemático de inúmeras famílias da condição de trabalhadores-pagadores devidamente integrados no sistema capitalista de base financeira, para se situarem à margem de um sistema que por não os integrar nem lhes oferecer alternativa, os exclui de forma abrupta.

Agora, falhado que está o primeiro ano de austeridade radical, opta o governo central pela mesma estratégia esquecendo decididamente a disrupção social causada. Até agora a generalidade da sociedade viveu preocupada com a manutenção do que tinha, sem nada ganhar, mas também sem nada perder. Manter o pagamento dos créditos assumidos tem sido a principal preocupação de uma classe média que se vê encurralada entre um passado de construção de uma vida mais airosa, e um futuro que se apresenta negro. Até agora a maior preocupação era o emprego, a alimentação e o pagamento de créditos.

Está a chegar um tempo de mudança, em que voltaremos a uma postura socioeconómica pré-EU, em que a generalidade da mão-de-obra será forçada a emigrar, não apenas para ter uma vida melhor, mas para sustentar familiares. Em que o abandono sistemático das casas que não se conseguem pagar levará à saída dessas mesmas casas, em que a concentração familiar voltará a ser uma realidade. E essas pessoas, sem rendimento para uma casa, sem capacidade para integrarem os planos de habitação dos poderes centrais e locais se verão forçados à ocupação de edifícios abandonados, à construção de bairros de barracas, ou a serem forçados a viver na rua.

A questão essencial tem sido, até agora, pensar como vamos sobreviver a tanta austeridade, havendo um esquecimento sistemático das consequências devastadoras para o tecido social dessa mesma austeridade. A pobreza, a miséria e a fome, foram o nosso passado, e são cada vez mais o nosso presente. Mais depressa do que pensamos, veremos surgir nas tabelas, nos gráficos e nos rankings o aumento da criminalidade, do abandono escolar, tal como a diminuição da esperança média de vida.

No Portugal pré-EU era essencial a organização das micro-sociedades (a família, a rua, o bairro, a localidade) em torno de si próprias para fazer face aos problemas que sendo de todos teriam que ser resolvidos por todos, para todos. 

Só de forma organizada, consciente, focalizada essencialmente no “nós” e pondo de parte o governo central (demasiado focado no seu mundo de números, gráficos e tabelas) poderemos encontrar as formas para fazer face a este desafio, que não sendo novo, considerávamos todos estar devidamente ultrapassado.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

quanto à promoção do pingo doce


intrincado no debate sobre o assunto vejo muita gente defender que quem foi ao pingo doce o fez por escolha própria, em liberdade e que essa liberdade deve ser respeitada.

Tendo em conta que a maioria das pessoas que aí se dirigiram têm de facto necessidades gritantes de consumo de bens primários e que com este tipo de iniciativas as conseguem minimizar, não deveremos afirmar mais paulatinamente que não fizeram compras em liberdade, mas sim compras em necessidade?

até que ponto um individuo que se vê assaltado naquelas que considera as suas verdadeiras necessidades é um individuo livre? até que ponto é que pode decidir em consciência e com a paz de espírito suficiente para que se possa facilmente indicar que se age em liberdade?

as grilhetas que impedem a liberdade de escolha, de acção e de opinião não são apenas o medo da perseguição politica por discordarem de nós. essa capacidade continuamos a ter. o que não temos é a paz social e económica necessária que nos permita ultrapassar o medo crescente de não ter dinheiro para pagar as contas, o medo de perder a casa e não ter para onde ir, o medo de não ter dinheiro para comer, o medo de perder o trabalho e não haver mais nenhum, e consequentemente o medo da desestruturação familiar, o medo, acima de tudo, de perdermos tudo o que temos, e com isso, tudo o que somos.



é o medo que nos priva de liberdade, e enquanto continuarmos a agir pelo medo, tentando evitar o que o causa, não agimos seguramente em liberdade.


o 1º de maio do pingo doce veio revelar acima de tudo isto. o medo, a existência de necessidade extrema que leva a que se aja em função do medo. mais do que a pobreza intelectual daqueles que escolheram transformar o dia do trabalhador no dia do consumidor, demonstra-se que a sociedade que temos, o país que temos, este povo que vemos é facilmente comprável por descontos e promoções, e não o são por opção, nem o escolhem em liberdade. fazem-no porque ao ser-lhes retirada a perspectiva de um futuro livre, foi-lhes também retirada toda a liberdade de acção.

sexta-feira, 23 de março de 2012

sobre o 22 de março

ok.. considero-me esclarecido.

1. um rapaz (alguns dizem que era da PSP) andava a atirar petardos, foi localizado, deitaram-lhe a mão, retiraram-no a ele e mais alguns da manifestação subindo a R. Serpa Pinto. para os identificar e deter (não sei se foram detidos, não sei se foram acusados, gostava de saber)

2. os restantes manifestantes vendo a policia retirar inexplicavelmente alguns manifestantes do corpo da manifestação levando-o para trás e um cordão policial reagiram e procuraram impedir

3. o cordão impediu a acção desses manifestantes que por causa disso os insultaram chamando principalmente "fascistas" e "assassinos", o cordão reagiu empurrando e batendo em alguns manifestantes que se encontravam a pressionar o mesmo. os manifestantes reagiram atirando objectos.

4. o Corpo de Intervenção com alguns agentes formou na Rua Garrett e carregou no sentido ascendente. Assim que passaram a Rua Serpa Pinto os policias que se encontravam aí a fazer cordão (de ambos os lados) juntaram-se à carga.

5. a carga de varredura feita pelos agentes da PSP (nem todos do CI) teve como principal objectivo impedir a pressão sobre o cordão que se encontrava na R Serpa Pinto. Carregou pela Rua Garrett fora até junto do Largo Camões.

6. durante a carga policial inúmeros inocentes foram ilícita e injustamente maltratados incluindo manifestantes, jornalistas, turistas e utilizadores das esplanadas.



Por tudo isto, mas também pelas palavras da CGTP e do 15Outubro considero que:

1. É essencial que as Plataformas participantes nestas manifestações e acções de protesto condenem todas as formas de violência independentemente de quem as origina (sejam manifestantes ou policias)

2. É responsabilidade de todos os participantes nas manifestações, especialmente dos seus organizadores, a segurança das mesmas e garantir que se processam sem violência.

3. É tempo de todas as plataformas detectarem os elementos desestabilizadores, sejam eles infiltrados políticos ou não, sejam eles infiltrados da policia ou não. Se desestabilizam as manifestações através da violência, da promoção da desordem, do incitamento ao caos e da consciente e propositada violação da lei, deverão ser identificados pelas plataformas, deverão ser detidos e entregues à policia (tal como em Itália se fez ao Black Bloc)

4. É tempo de a PSP deixar de carregar indiscriminadamente sobre os cidadãos gerando o caos e tornando-se um elemento desestabilizador. A função da policia é garantir a segurança de todos, incluindo dos manifestantes.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

do jornalismo em tempo de revolta..

não.. não acho que a crise justifique tudo, nem acho que a luta contra a crise justifique tudo, nem acho sequer que a revolta contra a maneira como esta crise é conduzida justifique tudo..

sei que há oportunistas e revoltados de ambos os lados da questão.. sei que em cada empresa, em cada escola, em cada associação há uns e outros, sei que a revolta nos atinge grandemente e a vontade de a por em pratica é grande.

considero que devemos ter todos a racionalidade suficiente para saber separar o trigo do joio, considero que no campo mediático todos temos um papel como observadores, relatadores, mas acima de tudo como críticos.

a generalidade dos trabalhadores dos meios de comunicação social não são o inimigo, não servem o grande capital e concordam largamente com toda esta revolta contra uma pseudo-crise que também os afecta.

sou, sempre fui, contra jornalistas que tomem um lado da questão, mesmo que esse lado hoje seja o meu. sei que um jornalismo que não é isento não é jornalismo.. é propaganda, e a propaganda é a melhor forma de nos cegarem.

por isso considero que mais importante do que os erros pontuais, mais importante que as noticias não serem expressas da forma que melhor me servem, é o facto de também não serem da forma que melhor servem quem se opõe a mim.

prefiro, e defendo, um jornalismo independente (ou o mais independente possível).

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

A Guerra da Bósnia

nos inícios de 90 os Balcãs voltaram a explodir numa enorme turbulência, a Jugoslávia ruiu..

lembro-me das palavras de um jogador do Sporting.. dizia-se profundamente infeliz porque tinha crescido como Jugoslavo.. no fim da guerra era obrigado a ser Croata, porque o país dele já não existia.
lembro-me da história de um casal, julgo que professores, a viverem no sul de Espanha há inúmeros anos, emigrados da Jugoslávia, ambos Jugoslavos, apenas que um de origem Croata, o outro de origem Sérvia.. tinham-se ambos por civilizados, cultos e esclarecidos, no debate das suas ideias, e das suas opiniões vieram ao de cima as suas convicções, aquelas com que tinham sido criados, esgrimindo argumentos, trocando opiniões, argumentando e contra argumentando até ao ponto de sentirem que já não eram um casal, mas sim dois pontos opostos de uma guerra que se desenrolava a milhares de quilómetros de onde se encontravam.
lembro-me de aprender História com o meu pai, entre os livros dos grandes historiadores, e os mapas de Portugal, quando ele,recriava as batalhas entre liberais e absolutistas, lembro-me de ver com apreensão as disputas entre irmãos, entre pais e filhos, entre amigos, separados por opiniões contrárias, a combaterem contra aqueles que lhes eram mais queridos, pelo que acreditavam, pelo mundo que queriam construir e como o concebiam.


A contestação social, o caos gerado pela pobreza iminente, pela crise instituída, ainda agora mal começou.. e já vejo diariamente a crispação crescer entre conhecidos, entre amigos. Já vejo posições tornarem-se antagónicas ao ponto de as pessoas se verem forçadas a virar costas, a afastarem-se para cantos opostos.

E interrogo-me qual o meu papel, porque por um lado não gosto de me antagonizar, mas por outro tenho uma opinião fortemente marcada, a qual exprimo de forma extrema.
Se por um lado sinto a necessidade de contactar directamente todos aqueles com quem privo habitualmente quando os vejo exprimir aquilo que são para mim não apenas autênticos disparates, como atentados à dignidade e à honra da pessoa humana e da sua integração num estado social, por outro.. não sou um agente evangelizador, não existo para os iluminar ou lhes espalhar a palavra..

Alguns já se perderam no caminho, amuados, alterados, ou apenas desgostosos com a minha forma de expressão.. tenho uma certa pena que tenham escolhido ir-se. tenho e terei saudades. outros estão no processo de se irem.. e dou comigo a pensar nisso, se a construção de uma sociedade melhor obriga ou não a irmos atrás de quem, sendo um amigo, tem uma postura totalmente antagónica à nossa.. por outro, dou por mim a interrogar-me como posso/pude ser amigo de pessoas que defendem de forma tão intensa questões que não só me revoltam, como muitas vezes me enojam.. hoje pela tarde pensava que aqueles que se surpreendem de me ver opinar e lutar pelo que acredito nunca me conheceram verdadeiramente.. agora dou por mim a pensar que talvez tenha sido eu que nunca os tenha conhecido a eles.. e que na pacificação social é mais fácil aceitarmos as diferenças, é mais fácil sermos tolerantes com quem defende o que nos repugna.. e que no extremar de posições se descobre que aqueles nunca poderiam ter sido meus amigos, nunca os poderia considerar como tal, se de facto têm uma visão do mundo tão diferente.. tão oposta à minha.

.. todos os dias me lembro da guerra da bósnia.