quinta-feira, 25 de outubro de 2012

A segunda vaga





Depois do primeiro impacto da crise sobre a economia com as conhecidas consequências na vida real é chegada agora a segunda vaga, a falência institucional e o rompimento da base social.

Se primeiro momento a crise era essencialmente dos sobre endividados, que há anos viviam “com a corda no pescoço” e que se viram afetados direta e imediatamente pelos excessos de consumo em que incorreram, arrastando atrás de si famílias e credores. Num segundo momento, e com a abrupta subida da taxa de juro e as consequentes medidas de austeridade englobado no plano da troika, pondo em causa todo o Estado Social que foi criado ao longo do Sex. XX, iniciou-se a disrupção da sociedade com os crescentes apelos às instituições de solidariedade social pelo fornecimento de roupa e alimentação, com a fuga massiva de mão-de-obra para o estrangeiro (quer qualificada, quer não qualificada) e com o abandono sistemático de inúmeras famílias da condição de trabalhadores-pagadores devidamente integrados no sistema capitalista de base financeira, para se situarem à margem de um sistema que por não os integrar nem lhes oferecer alternativa, os exclui de forma abrupta.

Agora, falhado que está o primeiro ano de austeridade radical, opta o governo central pela mesma estratégia esquecendo decididamente a disrupção social causada. Até agora a generalidade da sociedade viveu preocupada com a manutenção do que tinha, sem nada ganhar, mas também sem nada perder. Manter o pagamento dos créditos assumidos tem sido a principal preocupação de uma classe média que se vê encurralada entre um passado de construção de uma vida mais airosa, e um futuro que se apresenta negro. Até agora a maior preocupação era o emprego, a alimentação e o pagamento de créditos.

Está a chegar um tempo de mudança, em que voltaremos a uma postura socioeconómica pré-EU, em que a generalidade da mão-de-obra será forçada a emigrar, não apenas para ter uma vida melhor, mas para sustentar familiares. Em que o abandono sistemático das casas que não se conseguem pagar levará à saída dessas mesmas casas, em que a concentração familiar voltará a ser uma realidade. E essas pessoas, sem rendimento para uma casa, sem capacidade para integrarem os planos de habitação dos poderes centrais e locais se verão forçados à ocupação de edifícios abandonados, à construção de bairros de barracas, ou a serem forçados a viver na rua.

A questão essencial tem sido, até agora, pensar como vamos sobreviver a tanta austeridade, havendo um esquecimento sistemático das consequências devastadoras para o tecido social dessa mesma austeridade. A pobreza, a miséria e a fome, foram o nosso passado, e são cada vez mais o nosso presente. Mais depressa do que pensamos, veremos surgir nas tabelas, nos gráficos e nos rankings o aumento da criminalidade, do abandono escolar, tal como a diminuição da esperança média de vida.

No Portugal pré-EU era essencial a organização das micro-sociedades (a família, a rua, o bairro, a localidade) em torno de si próprias para fazer face aos problemas que sendo de todos teriam que ser resolvidos por todos, para todos. 

Só de forma organizada, consciente, focalizada essencialmente no “nós” e pondo de parte o governo central (demasiado focado no seu mundo de números, gráficos e tabelas) poderemos encontrar as formas para fazer face a este desafio, que não sendo novo, considerávamos todos estar devidamente ultrapassado.