Depois do primeiro impacto da crise sobre a economia com as
conhecidas consequências na vida real é chegada agora a segunda vaga, a falência
institucional e o rompimento da base social.
Se primeiro momento a crise era essencialmente dos sobre
endividados, que há anos viviam “com a corda no pescoço” e que se viram afetados
direta e imediatamente pelos excessos de consumo em que incorreram, arrastando
atrás de si famílias e credores. Num segundo momento, e com a abrupta subida da
taxa de juro e as consequentes medidas de austeridade englobado no plano da
troika, pondo em causa todo o Estado Social que foi criado ao longo do Sex. XX,
iniciou-se a disrupção da sociedade com os crescentes apelos às instituições de
solidariedade social pelo fornecimento de roupa e alimentação, com a fuga massiva
de mão-de-obra para o estrangeiro (quer qualificada, quer não qualificada) e
com o abandono sistemático de inúmeras famílias da condição de
trabalhadores-pagadores devidamente integrados no sistema capitalista de base
financeira, para se situarem à margem de um sistema que por não os integrar nem
lhes oferecer alternativa, os exclui de forma abrupta.
Agora, falhado que está o primeiro ano de austeridade
radical, opta o governo central pela mesma estratégia esquecendo decididamente
a disrupção social causada. Até agora a generalidade da sociedade viveu
preocupada com a manutenção do que tinha, sem nada ganhar, mas também sem nada
perder. Manter o pagamento dos créditos assumidos tem sido a principal
preocupação de uma classe média que se vê encurralada entre um passado de
construção de uma vida mais airosa, e um futuro que se apresenta negro. Até
agora a maior preocupação era o emprego, a alimentação e o pagamento de
créditos.
Está a chegar um tempo de mudança, em que voltaremos a uma postura socioeconómica pré-EU, em que a generalidade da mão-de-obra será forçada a emigrar, não apenas para ter uma vida melhor, mas para sustentar familiares. Em que o abandono sistemático das casas que não se conseguem pagar levará à saída dessas mesmas casas, em que a concentração familiar voltará a ser uma realidade. E essas pessoas, sem rendimento para uma casa, sem capacidade para integrarem os planos de habitação dos poderes centrais e locais se verão forçados à ocupação de edifícios abandonados, à construção de bairros de barracas, ou a serem forçados a viver na rua.
A questão essencial tem sido, até agora, pensar como vamos
sobreviver a tanta austeridade, havendo um esquecimento sistemático das
consequências devastadoras para o tecido social dessa mesma austeridade. A
pobreza, a miséria e a fome, foram o nosso passado, e são cada vez mais o nosso
presente. Mais depressa do que pensamos, veremos surgir nas tabelas, nos gráficos
e nos rankings o aumento da criminalidade, do abandono escolar, tal como a
diminuição da esperança média de vida.
No Portugal pré-EU era essencial a organização das
micro-sociedades (a família, a rua, o bairro, a localidade) em torno de si
próprias para fazer face aos problemas que sendo de todos teriam que ser
resolvidos por todos, para todos.
Só de forma organizada, consciente, focalizada
essencialmente no “nós” e pondo de parte o governo central (demasiado focado no
seu mundo de números, gráficos e tabelas) poderemos encontrar as formas para
fazer face a este desafio, que não sendo novo, considerávamos todos estar
devidamente ultrapassado.
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