quarta-feira, 2 de maio de 2012
quanto à promoção do pingo doce
intrincado no debate sobre o assunto vejo muita gente defender que quem foi ao pingo doce o fez por escolha própria, em liberdade e que essa liberdade deve ser respeitada.
Tendo em conta que a maioria das pessoas que aí se dirigiram têm de facto necessidades gritantes de consumo de bens primários e que com este tipo de iniciativas as conseguem minimizar, não deveremos afirmar mais paulatinamente que não fizeram compras em liberdade, mas sim compras em necessidade?
até que ponto um individuo que se vê assaltado naquelas que considera as suas verdadeiras necessidades é um individuo livre? até que ponto é que pode decidir em consciência e com a paz de espírito suficiente para que se possa facilmente indicar que se age em liberdade?
as grilhetas que impedem a liberdade de escolha, de acção e de opinião não são apenas o medo da perseguição politica por discordarem de nós. essa capacidade continuamos a ter. o que não temos é a paz social e económica necessária que nos permita ultrapassar o medo crescente de não ter dinheiro para pagar as contas, o medo de perder a casa e não ter para onde ir, o medo de não ter dinheiro para comer, o medo de perder o trabalho e não haver mais nenhum, e consequentemente o medo da desestruturação familiar, o medo, acima de tudo, de perdermos tudo o que temos, e com isso, tudo o que somos.
é o medo que nos priva de liberdade, e enquanto continuarmos a agir pelo medo, tentando evitar o que o causa, não agimos seguramente em liberdade.
o 1º de maio do pingo doce veio revelar acima de tudo isto. o medo, a existência de necessidade extrema que leva a que se aja em função do medo. mais do que a pobreza intelectual daqueles que escolheram transformar o dia do trabalhador no dia do consumidor, demonstra-se que a sociedade que temos, o país que temos, este povo que vemos é facilmente comprável por descontos e promoções, e não o são por opção, nem o escolhem em liberdade. fazem-no porque ao ser-lhes retirada a perspectiva de um futuro livre, foi-lhes também retirada toda a liberdade de acção.
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