quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

A Guerra da Bósnia

nos inícios de 90 os Balcãs voltaram a explodir numa enorme turbulência, a Jugoslávia ruiu..

lembro-me das palavras de um jogador do Sporting.. dizia-se profundamente infeliz porque tinha crescido como Jugoslavo.. no fim da guerra era obrigado a ser Croata, porque o país dele já não existia.
lembro-me da história de um casal, julgo que professores, a viverem no sul de Espanha há inúmeros anos, emigrados da Jugoslávia, ambos Jugoslavos, apenas que um de origem Croata, o outro de origem Sérvia.. tinham-se ambos por civilizados, cultos e esclarecidos, no debate das suas ideias, e das suas opiniões vieram ao de cima as suas convicções, aquelas com que tinham sido criados, esgrimindo argumentos, trocando opiniões, argumentando e contra argumentando até ao ponto de sentirem que já não eram um casal, mas sim dois pontos opostos de uma guerra que se desenrolava a milhares de quilómetros de onde se encontravam.
lembro-me de aprender História com o meu pai, entre os livros dos grandes historiadores, e os mapas de Portugal, quando ele,recriava as batalhas entre liberais e absolutistas, lembro-me de ver com apreensão as disputas entre irmãos, entre pais e filhos, entre amigos, separados por opiniões contrárias, a combaterem contra aqueles que lhes eram mais queridos, pelo que acreditavam, pelo mundo que queriam construir e como o concebiam.


A contestação social, o caos gerado pela pobreza iminente, pela crise instituída, ainda agora mal começou.. e já vejo diariamente a crispação crescer entre conhecidos, entre amigos. Já vejo posições tornarem-se antagónicas ao ponto de as pessoas se verem forçadas a virar costas, a afastarem-se para cantos opostos.

E interrogo-me qual o meu papel, porque por um lado não gosto de me antagonizar, mas por outro tenho uma opinião fortemente marcada, a qual exprimo de forma extrema.
Se por um lado sinto a necessidade de contactar directamente todos aqueles com quem privo habitualmente quando os vejo exprimir aquilo que são para mim não apenas autênticos disparates, como atentados à dignidade e à honra da pessoa humana e da sua integração num estado social, por outro.. não sou um agente evangelizador, não existo para os iluminar ou lhes espalhar a palavra..

Alguns já se perderam no caminho, amuados, alterados, ou apenas desgostosos com a minha forma de expressão.. tenho uma certa pena que tenham escolhido ir-se. tenho e terei saudades. outros estão no processo de se irem.. e dou comigo a pensar nisso, se a construção de uma sociedade melhor obriga ou não a irmos atrás de quem, sendo um amigo, tem uma postura totalmente antagónica à nossa.. por outro, dou por mim a interrogar-me como posso/pude ser amigo de pessoas que defendem de forma tão intensa questões que não só me revoltam, como muitas vezes me enojam.. hoje pela tarde pensava que aqueles que se surpreendem de me ver opinar e lutar pelo que acredito nunca me conheceram verdadeiramente.. agora dou por mim a pensar que talvez tenha sido eu que nunca os tenha conhecido a eles.. e que na pacificação social é mais fácil aceitarmos as diferenças, é mais fácil sermos tolerantes com quem defende o que nos repugna.. e que no extremar de posições se descobre que aqueles nunca poderiam ter sido meus amigos, nunca os poderia considerar como tal, se de facto têm uma visão do mundo tão diferente.. tão oposta à minha.

.. todos os dias me lembro da guerra da bósnia.

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